Na pré-delinquência juvenil, nunca precisei de muito dinheiro. Uma penca de gibis (Super-Homem, Batman, Gasparzinho, Bolinha & Luluzinha, Flecha Ligeira, Cavaleiro Negro e Príncipe Valente), doces comprados no armazém do seu Valter, um punhado de balas azedinhas e alguns envelopes com figurinhas dos Ídolos do Robertão – Roberto Gomes Pedrosa, o Campeonato Brasileiro de hoje – satisfaziam as minhas necessidades intelectuais e gastronômicas da semana. Ah, quase ia esquecendo o principal: a grana para as matinês domingueiras do Cine Ipanema. Como se vê, fui um infante de hábitos espartanos.Porém, já naquela época não existia almoço grátis. Para fazer jus aos benefícios, tinha que seguir um código de conduta, que consistia basicamente em respeitar os mais velhos, confessar os pecados ao padre Antonio no sábado e comungar na missa das 10 de domingo – às vezes atuando como coroinha – não brigar na rua, não proferir palavrões (impossível de obedecer) e ser um aluno aplicado da professora Maria Helena no Grupo Escolar José de Anchieta. Me saía bem, em quase todos os quesitos. Eventuais deslizes, na ótica da mãe, eram punidos com chineladas no traseiro. Registre-se, para a história, que as tundas eram injustas. Ontem, como hoje, nunca fiz nada de reprovável.
Quando ingressei na delinquência juvenil, decidi ganhar o meu próprio dinheiro. Não era justo sobrecarregar o pai com as crescentes demandas da minha sede de aventuras (cerveja, sexo, livros e MPB). Depois de uma rápida incursão na lida com a terra – capina e poda de grama nas casas da vizinhança – ingressei formalmente no mercado de trabalho, como faz-tudo em um escritório de representação comercial. Eu era um contínuo, sempre indo ou vindo de algum lugar. Um “corinho”, na gíria de então – alusão ao vai e vem do prepúcio naqueles momentos íntimos em que os machos da jeunesse dorée prestavam vassalagem no altar de Onã.
Ganhava 120 paus por mês, salário de menor. Aprendi o valor do dinheiro quando economizei três meses para comprar a minha primeira calça Lee (que na verdade foi uma Levis, adquirida na Saco & Cuecão por 80 cruzeiros).
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Atualmente constato, não sem amargura, que a idéia de que o dinheiro não cresce em árvore, mas sim é fruto do trabalho, está caindo em desuso junto a grande parte da juventude. Não me refiro aos filhos da miséria, para quem o mercado de trabalho é uma madrasta má. Falo dos bem nascidos, os filhos da abastança. Lamentavelmente, conheço jovens que, por terem acesso fácil a tudo o que o dinheiro pode comprar, fazem de suas vidas um sono eterno no que diz respeito à conquista de ambições pessoais e sequer aventam a possibilidade de uma atividade produtiva em prol da coletividade. São parasitas sociais. A culpa não é exclusivamente deles, naturalmente. Grande parte da responsabilidade é dos pais, que abdicaram da tarefa nem sempre agradável de educar os filhos, inclusive financeiramente. Talvez movidos pela noção errônea de que amar a prole é nunca dizer não aos seus quereres, mesmo os mais supérfluos, ou quem sabe assombrados por um passado de carência econômica que querem soterrar, ou ainda por simples comodismo, muitos pais desconhecem limites quando se trata de atender os desejos dos rebentos – aqueles que podem ser comprados com o dinheiro. A intenção pode ser boa, mas, na minha opinião, trata-se de um equívoco brutal, cujo resultado é uma legião hedonista. Viver não é apenas sinônimo de vinhos, mulheres (ou homens) e canções. Inclui também luta e trabalho duro não apenas para ganhar dinheiro, mas igualmente para alcançar ideais não necessariamente monetários.
A vida é melhor e mais decente quando o ter é resultado do fazer honesto.
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Este texto faz parte da blogagem coletiva sobre Educação Financeira Infantil, para a qual fui convidado pela Cybele Meyer.
Este texto faz parte da blogagem coletiva sobre Educação Financeira Infantil, para a qual fui convidado pela Cybele Meyer.
Beijos, moças. Abraços, moços. Bom findi a todos.
Arriba, moçada!
Arriba, moçada!







